A apneia obstrutiva do sono (AOS) afeta entre 15 e 30% da população adulta geral — e esse número sobe para 40 a 80% em populações com transtornos psiquiátricos. Apesar disso, a AOS raramente é avaliada de forma sistemática na prática psiquiátrica. O resultado é que uma parcela significativa de pacientes com depressão resistente ao tratamento, cognição comprometida ou humor instável carrega uma comorbidade respiratória não diagnosticada que atua como fator de manutenção dos seus quadros.

O que a AOS faz ao cérebro

Fragmentação do sono e privação de sono profundo

Na AOS, apneias repetidas — interrupções do fluxo de ar por 10 segundos ou mais — provocam microdespertares que fragmentam a arquitetura do sono sem que o paciente os perceba conscientemente. O sono de ondas lentas (N3), essencial para consolidação de memória e regulação neuroendócrina, é o mais prejudicado. O sono REM, quando presente, tende a ser suprimido ou encurtado.

Hipóxia intermitente

Cada episódio apneico provoca queda na saturação de oxigênio — por vezes a níveis inferiores a 80% em casos graves. A hipóxia intermitente ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, eleva o cortisol, aumenta citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α) e induz estresse oxidativo no tecido cerebral. Com o tempo, esses efeitos comprometem especialmente o hipocampo e o córtex pré-frontal — regiões centrais para memória, atenção e regulação emocional.

Ativação do sistema nervoso simpático

A fragmentação noturna e a hipóxia elevam a atividade simpática basal, com consequências cardiovasculares bem documentadas (hipertensão, arritmias, risco aumentado de eventos cardíacos) — e efeitos psiquiátricos menos estudados mas igualmente relevantes: maior reatividade ao estresse, dificuldade de regulação emocional e hiperativação fisiológica semelhante à observada em quadros ansiosos.

AOS e depressão: uma relação bidirecional

A relação entre AOS e depressão não é simples de desenhar. Os dois quadros se influenciam mutuamente:

A AOS contribui para depressão via privação de sono, fadiga crônica, prejuízo cognitivo e inflamação sistêmica. A depressão, por sua vez, reduz o tônus muscular das vias aéreas superiores, favorece ganho de peso (especialmente com uso de antidepressivos sedativos ou antipsicóticos), piora a higiene do sono e aumenta o uso de álcool — todos fatores que agravam a apneia.

Metanálises mostram que o tratamento da AOS com CPAP (Continuous Positive Airway Pressure) melhora significativamente escores de depressão — mesmo sem alteração do tratamento farmacológico. Dois estudos publicados no Journal of Clinical Sleep Medicine e no Sleep Medicine Reviews demonstraram reduções de 30 a 50% nos escores do PHQ-9 após adesão ao CPAP. Não é uma relação modesta.

Tratar depressão em um paciente com apneia não tratada é tentar equilibrar um sistema com uma variável desconhecida permanentemente ativa.

AOS e prejuízo cognitivo

Os déficits cognitivos da AOS — atenção sustentada, memória de trabalho, velocidade de processamento, funções executivas — são funcionalmente indistinguíveis dos observados no TDAH em adultos. Isso gera um problema diagnóstico importante: pacientes com AOS são por vezes diagnosticados com TDAH quando o quadro primário é respiratório. E pacientes com TDAH real podem ter sua AOS concomitante ignorada, reduzindo a efetividade do metilfenidato.

A diretriz prática é clara: em adultos com quadro de desatenção ou dificuldades executivas de início na meia-idade, investigação de AOS deve preceder ou acompanhar a avaliação de TDAH.

Screening na prática clínica

O STOP-BANG é o instrumento de rastreio com melhor equilíbrio entre sensibilidade e praticidade no contexto ambulatorial:

- Snoring (ronca?) - Tired (sente-se cansado mesmo após dormir?) - Observed (alguém já observou apneias durante o sono?) - Pressure (tem hipertensão arterial?) - BMI > 35 - Age > 50 - Neck circumference > 40 cm - Gender male

Três ou mais respostas positivas indicam risco moderado a alto — e justificam encaminhamento para polissonografia.

O que muda com o tratamento

Além da melhora na depressão, o tratamento eficaz da AOS está associado a redução de risco cardiovascular, melhora cognitiva (especialmente atenção e memória), redução da fadiga e, em pacientes com transtorno bipolar, melhor estabilidade do humor. Estudos observacionais sugerem que AOS não tratada em bipolares aumenta a frequência de episódios e a instabilidade de humor — um mecanismo biológico de ciclagem que raramente aparece no raciocínio clínico padrão.

A pergunta "você ronca?" ou "seu companheiro já notou que você para de respirar enquanto dorme?" deveria estar em toda anamnese psiquiátrica inicial. Não está — e esse gap custa ao paciente mais do que se imagina.